Atletas paralímpicos brasileiros mudam hábitos para suportar calor de Dubai durante o Mundial de Atletismo

5 d novembro d 2019 às 11:01 am

Delegação redobra cuidados com hidratação para iniciar a competição mais importante do ano para a modalidade a partir desta quinta-feira, 7. SporTV transmitirá ao vivo o Mundial

O técnico Everaldo Braz Lucio auxiliando na adaptação dos atletas brasileiros

Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, sediará de 7 a 15 de novembro a nona edição do Campeonato Mundial de Atletismo Paralímpico. Cerca de 1.400 atletas, de 120 países, competirão nas 172 provas. Em Dubai, a equipe nacional tem 43 competidores de 17 estados e do Distrito Federal. O evento terá transmissão dos canais SporTV. 

Apesar do emirado sede da competição ser banhado pelo Golfo Pérsico, ele foi erguido no Deserto da Arábia, por isso o clima é quente e úmido durante quase o ano inteiro. O Mundial será realizado em novembro por ser considerado um mês “frio” para os padrões locais. As temperaturas máximas não passam de 37ºC durante o dia, mas raramente ficam abaixo dos 24ºC à noite.  

Na noite de segunda-feira, 4, por exemplo, os cadeirantes Ariosvaldo Silva, o Parré, e Leonardo de Melo, treinaram pela segunda vez na pista do Dubai Clube for People of Determination, local do Mundial, e sentiram o calor. “Sopra um bafo quente na cara durante o treino”, disse Parré após o treinamento. Em razão do calor, os velocistas treinaram à noite. No horário em que Parré e Leonardo se exercitaram, por volta das 19h (de Dubai), os termômetros marcavam 27ºC.

Quando as primeiras provas do Mundial paralímpico forem realizadas, na manhã de quinta-feira, 7, estima-se que a temperatura beire os 33ºC.  Não é a primeira vez que o Mundial de Atletismo Paralímpico é sediado no Oriente Médio. Há quatro anos, a competição foi realizada em Doha, no Catar. Na ocasião, o Brasil foi representado por 40 atletas que conquistaram 35 medalhas.

Diferentemente do Mundial de atletismo organizado pela IAAF (Associação Internacional das Federações de Atletismo, em inglês) no Catar, em setembro, em que o estádio era climatizado, os Mundiais paralímpicos não contam com qualquer mecanismo de resfriamento para arrefecer os efeitos das altas temperaturas.  

Em 2015, o Brasil ficou com a sétima colocação no quadro geral de medalhas do evento disputado no Catar. Foram oito medalhas de ouro, 14 de prata e mais 13 de bronze. Na Seleção Brasileira que competirá em Dubai há 20 atletas que estiveram no Mundial de Doha. “Junto com os profissionais da área de ciência esportiva e médica, nós temos um acompanhamento diário da hidratação com água o tempo todo e com frutas entre as refeições. Isso influencia os resultados, porque aqui é muito quente e os atletas podem ficar com tontura e fraqueza devido à perda de sais minerais, o que também aumenta o risco de lesão. Doha em 2015 foi nosso maior alerta. Vimos que os atletas não se hidratavam nem dormiam como deveriam, então aumentamos nossa fiscalização na rotina dos deles aqui em Dubai”, disse Amaury Verissimo, técnico-chefe da modalidade. 

A delegação brasileira chegou a Dubai na quinta-feira, 31, para aclimatação, mas a adaptação começou ainda no Brasil, há cerca de duas semanas. “Nós mudamos o horário de treino para quando o sol estivesse mais quente e aumentamos a frequência de ingestão de líquidos. Aqui em Dubai, pesamos os atletas todos os dias, antes e depois do treino, para monitorar a perda de água, também os orientamos a observar a cor da urina, que serve como indicativo para uma desidratação. Muitas provas serão à noite, então para os que competirão pela manhã, terá uma estratégia de resfriamento”, explicou o fisiologista da Seleção, Thiago Lourenço. O velocista Felipe Gomes, 33 anos, minimizou o calor de Dubai. Ele subiu ao pódio para receber a medalha de ouro dos 200m e a prata dos 100m da classe T11 (para cegos) no Mundial de Doha 2015. Há dois meses, o medalhista paralímpico foi vice-campeão dos 100m e dos 400m nos Jogos Parapan-Americanos de Lima 2019. “Eu sou de Bonsucesso, no Rio de Janeiro, treinei muito ali em Bangu, e estou acostumado com o calor. Doha estava mais quente do que aqui em Dubai. Só de correr 10 minutos lá no Catar já perdia muito líquido. Aqui tem um vento que ajuda, até parece brisa do mar. Estou me alimentando bem e dormindo também, então a aclimatação está ótima”, comentou Felipe que é natural de Campos dos Goytacazes, Rio de Janeiro.

CONFIRA AQUI O PERFIL DOS ATLETAS BRASILEIROS DO MUNDIAL DE DUBAI  

Em agosto, 60 competidores do atletismo participaram dos Jogos Parapan-Americanos de Lima 2019, em que conquistaram 82 medalhas, sendo 33 de ouro, 26 de prata e 23 de bronze. Foi a segunda modalidade mais laureada na capital peruana, atrás apenas da natação. Estarão em Dubai 36 dos atletas brasileiros que competiram no Peru – 32 deles subiram ao pódio no evento continental. 

A última edição do Mundial de Atletismo foi realizada em julho de 2017, em Londres. Nesta competição, o Brasil ficou no nono lugar do quadro-geral de medalhas. A equipe nacional foi composta por 25 atletas e conquistou 21 medalhas, sendo oito de ouro, sete de prata e seis de bronze.

O melhor desempenho do Brasil em um Mundiais aconteceu em Lyon, em 2013, quando 40 medalhas foram conquistadas (16 ouros, dez pratas e 14 bronzes). 

Nova geração compõe 30% da deleção brasileira no Mundial de Atletismo Paralímpico em Dubai

Quase um terço da Seleção Brasileira que disputará o Campeonato Mundial de Atletismo Paralímpico a partir desta quinta-feira, 7, é de atletas jovens, com até 23 anos.

Esse percentual de atletas jovens está alinhado com o planejamento estratégico do Comitê Paralímpico Brasileiro. “Faz parte de um novo processo do CPB pensar em medalhas a longo prazo, ter uma grande estrutura e uma renovação constantes. Esses jovens já fazem parte desse projeto.

Nós identificamos talentos e demos continuidade a formação com suporte e trabalhando junto com os treinadores dos seus clubes. Acredito que os que estão aqui em Dubai podem já chegar ao pódio dos Jogos Paralímpicos de Tóquio 2020”, disse Jonas Freire, diretor-técnico adjunto do Comitê. 

Aos 18 anos, o paulista Thomaz Ruan já levou o Brasil ao pódio ao ser vice-campeão no salto em distância e nos 400m no Mundial de Jovens de 2017, na Suíça. O atleta da classe T47 nasceu com má-formação no braço direito e correrá apenas a prova de pista no Oriente Médio.  “Eu estou muito feliz por estar no meu primeiro Mundial Adulto. Eu tive uma grande caminhada até chegar aqui, então eu fico muito grato por estar junto de outros grandes atletas e poder representar o Brasil. Aqui, a atmosfera é outra. Fico mais animado e esperançoso para o dia da prova”, relatou.  Outra jovem é a maranhense Rayane Soares, 22 anos, que disputará seu primeiro Mundial. A velocista tem baixa visão devido a microftalmia bilateral congênita e correrá os 100m, os 200m e os 400m da classe T13 em Dubai. “Hoje eu realizo sonhos que na aqui verdade eu nunca sonhei. Nunca passou na minha cabeça que eu estaria em Dubai ou em outro país. Estou muito ansiosa para competir logo, principalmente os 400m”, comentou 

Entre os jovens da Seleção Brasileira também estão atletas que já têm familiaridade com o pódio, como o paraibano Petrucio Ferreira, recordista e campeão mundial dos 100m T47 (para amputados de braço), o paulista Daniel Martins (T20), recordista e bicampeão mundial dos 400m T20 (para deficientes intelectuais) e a paulista Verônica Hipolito, que faturou a prata nos 100m e o bronze nos 400m T38 (para paralisados cerebrais) nos Jogos Paralímpicos Rio 2016. Todos têm 23 anos. 

 O paratletismo tem patrocínio das Loterias Caixa e da Braskem.

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