Torrencial Valdívia UltraTrail – A Prova Coletiva, por André do Corre Siegle

30 d junho d 2017 às 5:05 pm

Antes de você começar a ler o que aconteceu na minha participação na Torrencial Valdívia UltraTrail 2017, curta a fanpage:

https://www.facebook.com/nimbusoutdoor/ – e deixe o site do evento aberto para conferir as informações – http://torrencial.cl/2017/pb/ , agora pega teu café e vem comigo para o Chile.

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Quando a jornalista Luciane Kohlmann (@lu_kohlmann @saudesemescala) e o seu marido Tomaz Paniz (@tomnatrilha) entraram em contato comigo, jamais passaria na cabeça deles que iriam me proporcionar uma das melhores experiências no meio do esporte. Lú e Tom, me falaram da Torrencial Valdívia que receberam o convite para essa prova, mas por motivos particulares não poderiam ir para o Chile, então, entraram em contato comigo, perguntando se eu não me interessaria

Eu tinha alguns dias de férias da agência em que trabalho para tirar e resolvi juntar o útil ao agradável. Essa é a melhor coisa que o esporte traz para mim, poder conhecer lugares novos, pessoas novas e realizar experiências jamais imagináveis. Lú e Tom, meu muito obrigado por essa experiência incrível.
Ultramaratona Coletiva, 2
 
Logo que recebi o convite repassado pela Lú e Tom, veio a fase de escolha do percurso. A organização disponibilizou as seguintes distâncias: 11k, 18k, 24k, 45k, 63k e 45k em dois dias a Travessia torrencial. O destaque dessa terceira edição foram os dois percursos novos, 18k e 45k em dois dias, Travessia Torrencial.

Como me sinto mais à vontade com distâncias médias, fiquei interessado nos 18k e 24k… mas como a gente sempre gosta de passar trabalho, a Travessia Torrencial me chamou atenção pela opção de ser realizada em dois dias, 25k e 20k e assim, com a opção de duas provas médias em dois dias em um total de 45k.

Quando comentei para o João o meu interesse pela Travessia Torrencial, ele foi muito resistente, por se tratar de dois dias de prova e cá entre nós, muito desgastante, somando um total de 2.100m+, 25k e 20k.

Falei com meus treinadores, Gabriel Picarelli e Luzia Pinto, disse da vontade de fazer a Travessia Torrencial e a resposta deles foi: se tu te compromete a treinar para tal prova, a gente topa. E o que aconteceu? Tu já sabe, Campeão da Travessia Torrencial 2017.

Ultramaratona Coletiva, 3

Com a meta estabelecida, foi hora de começar a treinar de verdade. Simular dois dias de prova, simular quilometragem, hidratação, roupa, tênis e por aí vai! Comecei a treinar e “sentir” a necessidade de um reforço muscular e trabalhar mais ainda minha mobilidade. Tinha na cabeça em completar o primeiro dia de prova – 25k – em 2h30min e o segundo – 20k – em 2h10min, para isso teria que reforçar toda musculatura (concluí o primeiro dia em 2h36min e o segundo em 1h49min).Aqui no Rio Grande do Sul, temos muitas provas e circuito trail de respeito; provas que você faz com gosto e também servem para treino. Fiz a inscrição para todas elas nesses três meses que antecederam a prova. Provas pesadas, provas que cheguei a ficar dois dias off pelo tranco e altimetria, “senti” que precisava intensificar meu reforço e fui procurar profissionais específicos para isso. Aí, entrei em contato com a Ultra Funcional Place, centro funcional de Porto Alegre que é guiada por grandes Ultramaratonistas – Daniel Gohl, Cristiano Fetter, Chico Ferrari e Leonardo Riva – e aí, os professores sentando com a minha equipe, “montaram” uma força tarefa para essa prova, juntando tudo que eu tinha direito.
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Com a aumento do volume de treino, o funcional teria que alinhar também a alimentação junto com o corpo. Refiz meus exames cardiológicos com o Dr. Raphael Boesche, vendo se a máquina estava 100% preparada para a pauleira, tudo OK. Pelo fato de ter itens obrigatórios, na mochila iria mais de 1kg, então, precisava ter carcaça para esses pesos adicionais. Aí, entra a Nutricionista, Rita Cherutti, alinhamos junto com os meus treinadores, uma dieta para eu perder mais 2kg e não perder a performance. E assim foi feito e realizado com êxito. O fisioterapeuta da Seleção Brasileira de Ultramaratona, Luis FernandoPato, entrou em contato comigo e me acompanhou durante essa fase, com liberação e massagens após os dias desgastados de treino. E para fechar com chave de ouro, tive um apoio fora de série: Cléo Martellet da Overtake que me presenteou com camisas e thermos para essa prova, meu muito obrigado… no frio do Chile o Thermo foi um “achado”! E a marca esportiva 361º  – Marcelo Liska e Bibis Scherer– que via Daniel Gohl e a Ultra Funcional Place, me presentearam com alguns modelos de tênis da 361º  para “teste” e a resposta não poderia ser outra: me adaptei a eles e juntos fomos mais longe. Meu muito obrigado.Primeiro dia, Travessia Torrencial, 25kMinha intenção era realizar a prova em 2h30min. independente do grau de dificuldade eu tinha esse tempo na cabeça, coisa de doido, uma bela noite dormi e acordei com esse tempo de prova na cabeça… seja o que for, minha meta tá lançada. Como falamos prova é prova, quando descemos do ônibus da organização para o primeiro dia de prova tudo que eu tinha “ajustado” para esse dia, foi tudo por água abaixo. Eu sinto muito calor, não sei se é a adrenalina, se é o nervosismo pré provas, mas é muito difícil eu ficar entrouxado. Quando coloquei o pé na beira mar da praia de Pilocura, estava 2 graus, um vento e garoa que tenho certeza que faria qualquer marmanjo se borrar. Vento muito forte, o “toten” da organização da prova, Nimbus Outdoor, parecia que ia sair voando toda vez que se olhava (fiquei sabendo que depois voou e tiveram que reforçar toda a amarração) eu iria correr apenas de camisa de manga curta, manguito e “hasta la vista baby” … mas foi ao contrário, tirei o quebra vento da mochila, peguei as luvas e fiquei igual a um pinguim. Me tremia feito vara verde, aí lembrei o por que do nome da prova ser: Torrencial Valdívia.

Para tentar espantar o frio, falei com outros corredores que fizeram as edições anteriores, se aventurando nos 63k e eles me confirmaram a questão “torrencial”, ano passado, no meio da prova, deu um temporal que ficou impossível dos corredores passarem no segundo rio (sim, passamos por três rios no primeiro dia de prova, um aos 2k, depois aos 4k e nos 6k se não me engano) ou seja, o clima é quem comanda a prova. Eu com uma hora para largada fiz 30min de trote, trotava 5min e caminhava 5min e assim fiz.

Todos alinhados, boiada já nervosa.. Um argentino, chamado Ismael Gatica, já éramos amigos via Facebook e nos conhecemos lá, disputando a Travessia Torrencial (ele foi o Terceiro Geral da Travessia) ele chegou em mim e peguntou quanto tempo eu queria fazer, disse o tempo ele olhou pra mim e balbuciou: “Entonces, vamos juntos!” aí meu amigo, se o frio já não bastava para ficar nervoso, o João me esperando na chegada no primeiro dia, vem um argentino e diz pra correr junto com ele…

Minha estratégia era não sair “vida louca” pra essa prova e sim, deixar a carcaça esquentar pelo fato de estar muito frio. Largamos e logo já criou um bloco dos primeiros colocados, galera largando pra 5´30, embolados e lembrando que teríamos 7k de subidas! Treinei muito para essa prova, os treinos técnicos levei à risca, postura em subidas, ritmo e assim foi feito… no km 2 de prova já estava liderando com uma folga de uns 100m na subida… e assim fui, cada “pico” da montanha eu olhava pra trás e falava mentalmente: “menos uma subida e não vejo ninguém”. Uma trilha muito técnica, e uma mata muito fechada, pelo km 6,5 veio o primeiro PC e o fim da subida interminável, os staffs bateram palmas quando cheguei e já me aprontava para um descida de 4k. Tentando acelerar na descida não conseguia, meu ritmo não baixava de 5´0 por km, não tenho como descrever a trilha úmida e técnica que descemos, sei que foi mais difícil que correr no plano ou mesmo subir. Chegando no km 11, me senti muito bem após a subida e descida, já não via ou me sentia ameaçado pelos outros corredores, então, imprimi na trilha um ritmo forte para poder me distanciar cada vez mais…

Lá pelas tantas, a trilha começa a ficar um pouco mais fechada, mais técnica e o frio começava a dar as caras como se “não houvesse amanhã.” Eu acabei não me dando conta que a trilha começava a ficar mais “fechada” continuei no ritmo forte, cruzei por baixo de um tronco de árvore e quando olhei para frente tinha mais ou menos uns 5 cachorros em frente, todos latindo e um cachorro pequeno na cor marrom foi ousado e chegou mais perto de mim eu me abaixei e toquei no focinho dele e disse: “quer correr comigo? Seja bem vindo!” e segui correndo, acho que por alguns segundos eu me distraí e quando vi… LOTE!!! Tropiquei, levantei… tropiquei novamente, levantei e cai mais uma vez… quando olho para o lado no meio da mata, o cachorro marrom que convidei para correr comigo, passou do meu lado feito um raio e eu pensei: “agora ele tá correndo, vou com ele”.

Levantei, limpei as mãos e aos poucos fui tentando chegar próximo ao ritmo que eu estava anteriormente, agora além de estar molhado por ter passado pelos rios, chovendo, úmido da mata e com lama por todo lado… eu só tinha que correr e chegar. Meu maior medo da prova é de liderar, sim, liderar uma prova. Sou uma pessoa muito desatenta e já quase perdi uma prova Trail em Mendoza – estava disputando os 21k – por no km 10 eu não prestar atenção e me perdi por 10min e o segundo colocado me buscou no km 18 de prova e eu tive que fazer 3km “pra morte” depois desse acontecimento, meu maior medo, como comentei anteriormente, é de liderar uma prova. Então, quando eu corria tendo um cachorro como “pacer” na prova só pensava o quanto essa prova teria que ser minha, além de um percurso muito bem sinalizado, marcações a cada 1 metro, sim, isso mesmo… na mata a organização Nimbus Outdoor fez esse feito… eu tinha tudo ao meu favor, uma sinalização perfeita e um pacer “canino” que conhecia o percurso (fiquei sabendo que o cachorro era de uma fazenda ali perto e conhecia tudo) mas mesmo assim eu consegui a façanha de me perder, na verdade era para esquerda e eu fui para direita… quando olho pra frente, não encontro o cachorro, volto e vejo ele seguindo na trilha lá na frente… creio que pelo vento e a chuva forte uma das fitas pode ter se desprendido e aí, o “perro pacer” fez toda diferença

Então, cheguei ao segundo PC, no km 16 de prova, lá foi onde me encontrei em desespero. Pelo ritmo que tinha colocado na prova, cheguei muito rápido  no último PC, quando cheguei tinham apenas as “armações” da barraca no chão e não tinha nenhum staff lá. Eles não tinham chego no local e então, eu parei e comecei a gritar, feito uma criança chorona: “ayuda, me ayudaaa, ayuadaaa” e nada. Decidi, então, seguir o percurso…mas pelo fato de ter ficado cerca de uns 5min parado esperando alguém aparecer  eu literalmente congelei. Esfriei e a circulação lentamente foi indo “pras cucuias”. Bah, não lembro de ter sentido tanto frio na vida, ponta dos dedos ficando roxa, boca congelando e a tremedeira começando, falei pra mim mesmo: “Siegle, precisa correr, volta ao ritmo que estava e vamo pra cima!”. Voltei aos poucos começar a esquentar e quando vi já estava indo pros 5km finais. Entro em um vale, parecia um filme de terror, passei em meio a uma névoa que parecia cortar o corpo, fiquei dentro dela (atravessando) por uns 3min, quando passei olhei para frente e começava uma subida interminável no km 21. Olhei para trás e pensei, se eu não subir rápido essa névoa ira me buscar e eu ficarei na merda. Peguei minhas últimas forças e subi trotante, firme e forte… e assim, completando a primeiro etapa em 2h36min.

Ao chegar, o João estava muito nervoso, pois como não pegaram meu número no PC do km 16, tinham informado ao João que o primeiro colocado era o segundo. agora tu imagina os nervos rsrs

Descanso e Recuperação

Quando cheguei no primeiro dia, o João estava com outra muda de roupa seca e minha alimentação para pós 25k. Eu cheguei meio “desorientado” pelo desgaste e pelo frio, ele não deixou em nem parar para pensar… já foi pegando uma toalha, me secando, tirando a camisa, trocando o tênis… quando vi, já estava seco e ele já tinha marcado o tempo de diferença que abri do segundo colocado.. “três minutos, três minutos” era isso que ele falava pra mim. Eu já seco e sentado ao lado da fogueira para esquentar.

 

Minha recuperação e descanso para o segundo dia, seria o ponto chave da travesia. Um bom descanso uma boa alimentação e a cabeça no lugar faria a grande diferença. E não posso deixar de citar a organização da Nimbus Outdoor, me deram hospedagem no hotel oficial da prova, Hotel Naguilán, onde tive toda estrutura, quarto excelente, acessos a alimentação total e uma atenção fora de série, meu muito obrigado.

A marca esportiva 361º me presenteou com um quebra vento, eu usei nos dois dias, mas estava literalmente “destruído”, encrostado de lama. João, lavou, colocou para secar. Pegou as luvas, lavou colocou para secar e quando eu ficava ali de pernas pro ar descansando, ele já organizava minha mochila e tudo que eu precisa para o segundo dia. João além de meu companheiro de vida é meu companheiro das “indiadas”, esse cara amigos, é o staff pessoal, o namorado, a pessoa que todos queriam do lado.

Segundo Dia, Travessia Torrencial, 20k

Após descansar, segundo dia de Travessia, 20k. Corpo já fadigado mas minha estratégia de segundo dia era: subir os 12km correndo sempre. Percebi no primeiro dia, que dos cinco primeiros colocados eu estava melhor preparado para subidas, então, tinha 12km iniciais da prova para tentar “definir” a prova. Subíamos 7km, ficava “plano” por 1km e até o km 12 mais 4k só subindo. Mas tinha o fator tempo, o protagonista da prova, tinha caído o mundo no dia anterior (sábado) e a noite toda, o frio tinha dado uma trégua mas o percurso seria duro pela lama que ficou.

Partimos da Casa Mans, o mesmo ponto que chegamos no dia anterior… rever o ponto de chegada e saber que ali seria decisivo para o desenrolar desses 20k. Fui aquecer e acabei me desligando de tudo, quando percebi o locutor gritava: “vamos, alineemos!!” Fui para linha de partida, pensando.. preciso seguir firme… quando veio a contagem decrescente e chegou no “foiii” o pessoal sai desenfreado, eu que estava na primeiro fileira, acabei indo para terceira e fui tentando buscar o lugar.

E como falamos, prova é prova… fui durante 3k ombro a ombro com os 4 primeiros colocados, uma peleia linda de se ver e um nervosismo fora do normal. Quando começamos a nos aproximar no km 4 de prova as posições foram sendo definidas, eu assumi a primeira posição, Ismael Gatica e Pablo Simonetti. Mas não contei como já citei algumas vezes o protagonista da festa era o clima, ao ficar mais plano o percurso tinha um lodo, mas não era um lodo normal, era um lodo que pelo fato da chuva no dia anterior e noite toda, alagou de fora a fora o estradão que estávamos passando.. e eu, ao pisar em meio ao lodo, perdi meu tênis e dei um passo com as meias no meio do lodo e fiquei até a canela tomado pelo barro.

Nisso, o segundo colocado passou por mim e o terceiro colocado passou também, e com isso, passei para a terceira posição. Na hora a frustração veio mas não poderia deixar me abalar, estamos falando do 5k ainda tinha 15k pela frente. Respirei fundo e falei pra mim mesmo: “calma, Siegle… foca!” Aí lembrei da mensagem que meu treinador Gabriel Picarelli me mandou assim que completei o primeiro dia de prova: “Parabéns, Siegle! Segue focado, comemora amanhã.”

Isso me veio à cabeça, então, calcei o tênis e segui com a estratégia de seguir firme e assim fiz. Fui engolindo os quilômetros pouco a pouco… de terceiro colocado passei para segundo, de segundo, voltei a liderar a prova. Corria com o pensamento lá na frente e queria apenas chegar e ao mesmo tempo lembrava de tudo que passei. Os treinos, amigos e tudo que me fez chegar até aqui e me consagrar CAMPEÃO.

Essa prova não foi minha e sim de todos aqueles que torceram por mim, um pangaré de montanha amador que hoje corre como gente grande! Obrigado.


André Siegle
Publicitário, corredor amador do Rio Grande do Sul, que vem buscando seu espaço no cenário Trail em provas médias até 45km.
E-mail: corresiegle@gmail.com
Twitter: http://twitter.com/andre_siegle/
Instagram: http://instagram.com/corresiegle/

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